Esta é a necessidade desesperadora que Carlos Eduardo sempre sentiu. É a luta sem trégua que existe até hoje na vida de Flávia. O primeiro nome é o de registro da criança que nasceu com corpo de menino, desde seu primeiro ano de vida nunca aceitando esta condição, a ponto de não permitir fotos da sua infância. Lembra do desconforto absoluto, da vergonha pela masculinidade imposta e não sentida como real, e depois, somente bem depois a compreensão de sua transexualidade. Usou roupas de menino a contragosto até o início de sua adolescência.

O nome feminino foi escolhido quando resolveu assumir o impulso incontrolável de parecer uma mulher, de agir como uma mulher. Hoje a medicina sabe que na transexualidade homem-para-mulher acontece uma arquitetura cerebral em que algumas áreas do cérebro são de estruturação feminina. A busca do sexo oposto não tem base cromossômica, hormonal, psicológica ou familiar. A mistura de masculino e feminino neste cérebro é determinada pela Natureza. Devemos respeitar e ajudar esta pessoa em seu difícil caminho. A família dificilmente aceita, e sem orientação específica, tende a rejeitar e reconduzir ao sexo original, a qualquer custo. O ambiente é tenso. Os colegas de escola sempre faziam piadinhas de mau gosto, cobrando uma masculinidade impossível. Professores (mesmo os universitários) lidavam e lidam com a situação com silencioso e visível embaraço, até nos esportes, em que Flávia sempre se saiu bem. Ela conseguia empregos, com sua capacidade e aparência feminina. Perdia assim que apresentava os documentos masculinos para o devido registro. O caminho legal em nosso país para mudança de prenome e sexo no Registro Civil é considerado por especialistas da área, um verdadeiro calvário, mais fácil após a cirurgia, em processo longo e dependente de julgador menos conservador, correndo risco de processo revertido em segunda instância. Hoje temos atendimento para transexuais e travestis pelo SUS. Em sua maioria desejam a redesignação sexual e enfrentam com ajuda de equipe multidisciplinar um ano de tratamento hormonal que induzirá aumento de mamas e mudanças de pilosidade e distribuição de gordura no corpo em composição feminina. Muitos (não todos) querem cirurgia que transforma o tecido peniano em uma vagina. O segundo ano prepara a pessoa para equacionar expectativas pessoais com a realidade. Estas pessoas aspiram por um companheiro estável, família. Sonham ser pessoa comum, sentindo-se bem na própria pele. E o ideal é que sempre tivessem o apoio de pais e irmãos, por toda a vida. “Viver é um rasgar-se e remendar-se.” – Guimarães Rosa.

 

Caso/nome reais. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência. Blog: http://diferenteeficientedeficiente.blogspot.com/

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